
Estudantes cobrem BandDebate Tropicalismo
Muita polêmica sobre o que é ou não música popular de qualidade marcou o tom do BandDebate Tropicalismo. Os estudantes presentes tiveram a oportunidade de contrapôr duas opiniões bem diferentes: o cantor Carlo Fernando, que limitou as fronteiras entre o luxo e o lixo na herança tropicalista, e o compositor Péricles Cavalcanti, que abarcou mais generosamente outros tipos de canções.
Confira entrevista exclusiva com Péricles Cavalcanti
Texto Camila Lima
Fotos Camila Lima e Ricardo Birrer
C: Como surgiu o conceito de antropofagia?
P: Alguns índios brasileiros não comiam os inimigos por maldade ou por vingança, é que eles acreditavam que assim ingeririam a coragem e sabedoria deles. O termo surgiu com a 2ª geração modernista e foi depois reincorporado por tropicalistas.
C: Em que medida essa tendência antropofágica foi impulsionada pelo tropicalismo?
P: Naquela época existia uma corrente intelectual que fazia uma crítica ao tropicalismo por ser ‘universalistas’ e o rock’n’roll era considerado coisa de americano. Mas eu não acho isso, eu acho que você pode misturar, jogar as letras para o inglês (Como em Cindy lee), etc., como era feito pelos tropicalistas.
C: Você acha que essa tendência antropofagia é, hoje em dia, muito responsável pela descaracterização cultural do Brasil, sabendo-se que a maior parte da nossa cultura atual é importada?

P: A gente não pode negar a influência atual da cultura americana no mundo, mas não é por isso que você tem que se ‘vender’. A língua está sempre presente, essa é a tendência natural. Existem coisas boas na música americana, assim como existem coisas boas na música brasileira. Boa parte da nossa música se descaracterizou – o que é chato- mas por outro lado você tem uma série de coisas contrárias a isso. Existem muitas coisas boas na geração de vocês, espontâneas e diferentes.
C: E quanto ao gosto? Você concorda que a mídia o impõe?

P: As gravadoras pagam para todos, mas não são todos que vão virar sucesso, não adianta, ninguém inventa sucesso. Se ele existe é porque existe a possibilidade daquilo vingar, de que as pessoas gostem. É claro que se você investe dinheiro ajuda, mas ajuda quem vai fazer sucesso, não quem não vai.
Já vi vários casos em que a gravadora apostou em gente que fracassou e se surpreendeu com coisas independentes. A internet facilitou isso, e hoje existem musica para todas as tribos, para todo mundo. Então, essa história de que o gosto é determinado pelas gravadoras não corresponde mais ao que ocorre atualmente.

C: Os intelectuais da época acusavam o movimento de alienado, os militares de político/social e alguns nomes como Caetano desmentem isso. Afinal, o movimento era ou não alienado?
P: Todo regime totalitário, seja ele militar, tende a criar regras culturais. Então quando você coloca uma coisa meio anarquista, porque o tropicalismo era um tipo de anarquia, eles acabavam se preocupando porque queriam ter controle cultural.
Então, o tropicalismo acabou sendo visto mais de esquerda do que de direita. Acaba sendo mais provocador do que uma coisa comportada, pelo menos eu imagino que seja isso que levou ao exílio do Caetano e do Gilberto, porque na verdade não tinha ninguém falando mal da ditadura ou de algo do tipo.
Por outro lado não tinha essa de ser alienado ou não, alienação era a pessoa não saber da ditadura, da sua classe social, essas coisas. O tropicalismo era sobretudo estético.